Ao saber da má notícia, reuniu a mulher e os 13 filhos e praticou o ato que iniciou os dias de angústia para os que temiam ficar pobre. "Meus filhos, cada um de vocês deve procurar um jeito de se arrumar na vida. Estou pobre", disse, laconicamente. E daí partiu a suas fazendas para fazer o mesmo comunicado aos seus 700 enpregados. “Vou pagar a todos, mas cada um procure o seu destino. Nada posso fazer”.
Via a fonte de sua fortuna com os dias contados e os adversários dizendo que le trouxe a vassoura-de-bruxa para a região. Não suportou. Criava boi por hobby. Juntou duas mil cabeças. O que era lazer funcionou como poupança. Com o dinheiro da venda da boiada pagou a indenização dos trabalhadores e outros credores. Sofreu um derrame cerebral e foi para São Paulo entre a vida e a morte. Morreu no dia 22/10/1999.

De Paris a Calçadas
Amigo de Pelé, Stevie Wonder, Carlos Bastos, Di Cavalcanti, antigo dono das fazendas Modelo e Bom Jesus, em Barra do Rocha, e do bar Anjo Azul, na Rua do Cabeça, falando inglês, italiano, francês e espanhol, já morou em Londres, Nova Iorque e Paris, vindo parar sobre as marquises do Porto da Barra, em Salvador, e de Ipiaú como mendigo.
"São etapas da vida. Não tenho nada a reclamar. Não sinto saudades e nem depressão". Depoimento de um outro grande produtor de cacau D.A.V, que hoje vive humildemente numa fazenda do sobrinho nos arredores de Ipiaú.
Entrevistado pelo Fantástico, da Rede Globo, teve sua biografia (Sobrevoando as Marquises), escrita pela jornalista Regina Echeverrya, a mesma autora das de Elis Regina e Cazuza.
“Certa feita combinou com Pelé, Jorge Amado e Carlos Bastos para todos comprarem terrenos na Rua do Calango Verde, na Pedra do Sal, em Itapuã, onde já estava instalado Calazans Neto. Chamavamos de o Condado de Itapuã”, conta D.A.V, que nos seus tempos de sarjeta passoua a fazer o quem é quem dos antigos amigos. “Alguns retorciam o nariz, fugiam, e desses eu também fazia questão de cortar voltas. Mas outros se aproximavam, choravam, querendo me tirar da rua, mas eu voltava, me sentia bem, só me preocupava com os tubos(garrafa de cachaça)”.
O mesmo lembra que uma vez estava sob a marquise do Grande Hotel da Barra, onde várias vezes foi hóspede de suítes de luxo, quando o proprietário, Sr. Garrido, antigo vizinho no Edifício Casablanca, chegou e perguntou: O que estás a fazer aí, Sr.? E ele respondeu “Sou seu hóspede, mais uma vez”.
Em resumo, se a crise da lavoura cacaueira foi devastadora para os produtores, para os trabalhadores também foi. O eco da história e do drama desses últimos é mais difuso, talvez por não terem muito o que recordar, estarem dispersos e presionados, prisioneiros da atualidade e de suas lembranças.

Esta região que tanto contribui para os cofres do Estado mergulhou ao fundo do posso assistida por um socorro tardio dos seus governantes que foram cumplices do maior desatre socio-econômico e cultural vivenciado neste país. Foi o verdadeiro ‘caos social’
A crise da lavoura do cacau vem arrastando-se desde a segunda metade da década de 80, atribuindo-se principalmente a um período de estiagem em 1986. Sendo que o principal elemento contigente desta crise foram os baixos preços do cacau. Todas estas ocorrências foram agravadas com o surgimento da doença Vassoura de Bruxa em 1989. Nesta época estimava-se de 175 mil a 200 mil trabalhadores rurais, hoje passados quase 20 anos é muito difícil estimar o número de trabalhadores existentes na região.
Obs.
I - "Estudos recentes mostram que a crise do cacau, especialmente a doença vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa), estaria provocando transformação na estrutura fundiária na tradicional região cacaueira e, dessa forma, contribuindo para explicar a expansão do movimento em nível regional".
II - Os principais fatores endógenos identificados foram: forte crise na cacauicultura em razão de estiagens; podridão parda e infestação pela praga crinipellis perniciosa (vassoura-de-bruxa); falta de modernização da produção; descapitalização e endividamento dos cacauicultores; e falências de empresas industriais.
FONTE: JORNAL A TARDE - Edição de 08/03/2001 - Caderno de Economia - Pgs.05 e 06.
CRUZ - Orlando Ribeiro - Pesquisador e historiador da Cultura do Cacau
Os Coronéis do Cacau" (1995), de Gustavo Falcón